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UE-Mercosul tem custo oculto?

O desenho do acordo mostra compromissos distintos entre os blocos


O desenho do acordo mostra compromissos distintos entre os blocos O desenho do acordo mostra compromissos distintos entre os blocos - Foto: Divulgação

O acordo entre Mercosul e União Europeia avança para sua fase decisiva após mais de duas décadas de negociações, inaugurando um longo período de implementação que pode chegar a 15 anos. Análise de Alê Delara, especialista em commodities, geopolítica e agronegócios, indica que o tratado carrega um custo oculto relevante para o Brasil ao estabelecer uma liberalização comercial profundamente assimétrica.

O desenho do acordo mostra compromissos distintos entre os blocos. O Mercosul se compromete com uma redução acelerada de tarifas sobre bens industriais europeus, como máquinas, químicos, fármacos e automóveis. Já a União Europeia adota uma abertura lenta e controlada, mantendo forte proteção sobre sua agricultura, setor politicamente sensível. Produtos nos quais o Mercosul é mais competitivo, como carne bovina, açúcar, etanol e arroz, seguem limitados por cotas tarifárias, salvaguardas e rígidos filtros regulatórios.

As cláusulas ambientais reforçam essa assimetria ao transformar critérios de sustentabilidade em condição de acesso ao mercado europeu. O custo de adaptação e certificação recai sobre o exportador brasileiro, enquanto o poder de fiscalização permanece concentrado em Bruxelas, com margem para uso político dessas regras.

Na prática, o acordo tende a gerar ganhos incrementais, como maior previsibilidade jurídica e redução gradual de tarifas, sem alterar a posição estrutural do Brasil no comércio internacional. Em contrapartida, amplia a concorrência sobre a indústria nacional e consolida um ambiente regulatório externo mais restritivo, institucionalizando desequilíbrios que devem moldar a inserção brasileira por muitos anos.

“O principal risco não está em permanecer à margem do comércio europeu, mas em aderir a um arcabouço que pressupõe neutralidade de regras em um contexto onde elas são, na prática, profundamente políticas. A entrada nesse acordo amplia oportunidades marginais, mas também consolida condicionantes estruturais que tendem a moldar o papel do país no comércio internacional por muitos anos”, conclui.
 

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